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quinta-feira, 4 de setembro de 2014
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
SUOR OU TALENTO?
Por
Eduardo Salgado
UMA
DAS AUTORAS DO ESTUDO QUE INCENDIOU O DEBATE SOBRE O PESO DA HABILIDADE INATA E
DO TREINAMENTO PARA CHEGAR A EXCELÊNCIA NÃO TEM DÚVIDA: SÓ O ESFORÇO NÃO BASTA.
“As
pessoas gostam de pensar que somos todos iguais. Infelizmente, não é bem
assim”.
Brooke Macnamara
“Será
que sou bom nisso? Estou investindo quantidade de tempo suficiente para
melhorar?” Quantas vezes fazemos esse tipo de pergunta ao longo da vida nas
variadas situações? Há mais de 100 anos, a ciência tenta explicar por que
algumas pessoas são excepcionais enquanto outras, a despeito da aplicação em
termos de energia e tempo, nunca passam do razoável. Quanto pode ser atribuído
ao talento inato e quanto corresponde a esforço? Brooke Macnamara, professora
de psicologia na Case Western Reserve University, e mais dois colegas reuniram
os 88 estudos mais renomados já realizados nessa área, analisaram todos os seus
dados e lançaram em julho um estudo na publicação acadêmica Psychological
Science. As conclusões do trabalho, considerado a revisão mais completa já
feita até hoje, abalaram algumas certezas e trouxeram para a ordem do dia o
debate sobre o que faz estudantes, atletas, músicos e profissionais ser muito
acima da média. A principal contribuição: dedicar muito tempo a uma tarefa não
fará ninguém virar fora de série.
As pessoas com alto
desempenho nascem assim ou são treinadas para chegar à excelência?
Não dá para simplificar tanto assim. Há muitos fatores
envolvidos em determinar quem vira um “excepcional”. Também depende da área de
atuação. Num jogo de xadrez, os jogadores que tiverem herdado uma inteligência
maior e uma memória melhor terão vantagens. Mas há outros fatores que
determinam o sucesso. Experiência é um deles. Com base em nosso estudo, porém,
derrubamos a noção de que tempo dedicado à prática é a principal responsável
pelo sucesso, como muitos andaram dizendo nos últimos tempos.
Alguns anos atrás, o
escritor Malcolm Gladwell ficou famoso ao mencionar estudos que mostram que a
diferença entre violinistas e pianistas excepcionais e os bons é o tempo de
treino. O traço comum da genialidade seriam 10.000 horas de prática. Isso está
errado?
Não tem nada de mágico em 10.000 horas de treino. Na
verdade, a prática exigida varia de acordo com a tarefa. Algumas atividades
precisam de muito mais horas. O tempo necessário também depende da pessoa. A
ideia de que a dedicação é tudo tem muito apelo. As pessoas querem acreditar
que qualquer um pode alcançar o que quiser. É igualitário achar que, com muito
empenho e treino, somos todos capazes. Mas infelizmente não é bem assim. Só o
esforço não basta.
Por que, então, a ideia
das 10.000 horas ganhou tanta força?
Isso é recente. Alguns trabalhos das últimas décadas
deram mais ênfase ao treinamento, tiveram exposição na mídia e ganharam ares de
“verdade absoluta”. O debate sobre se a genética ou as influências do ambiente
são mais importantes ocorre desde o século 19. O inglês Francis Galton, um dos
primeiros a propor a discussão, foi colocado num extremo, o que dava muito peso
à genética. O americano John B. Watson, criador do behaviorismo, foi
considerado, décadas mais tarde, o oposto de Galton. Na verdade, tanto um como
o outro diziam que genes e ambiente são importantes.
O que a faz ter tanta
certeza de que o ambiente não é determinante?
Avaliamos pesquisas nas áreas de música, esportes,
profissões, educação e jogos de mesa. O treinamento parece ser mais importante
em jogos como xadrez. O tempo dedicado ao treinamento explica 26% da diferença
de performance, ou seja, por que alguns jogadores são excepcionais e outros
não. Em música, o percentual foi de 21%; em esporte, 18%; e em educação o
número foi de 4%.
Apenas 4%? Então estudar
não adianta muito?
Não é isso. Antes de tudo, vale ressaltar que a prática é
importante para atingir a excelência. Também quero evitar uma interpretação
errada desses 4%. Não estou dizendo que estudar vai fazer com que uma pessoa só
melhore seu desempenho 4%. Não é isso. Quando quantificamos os fatores que
afetam a diferença de desempenho entre os melhores e os piores alunos de uma
sala de aula, o tempo dedicado ao estudo explica 4% do todo. Os demais 96% que
afetam a diferença são explicados por outros fatores. Isso não deveria ser
surpreendente para ninguém. Nas escolas, são comuns os casos de alunos que
aprendem rapidamente quando o professor fala em sal de aula, estudam pouco
tempo em casa e vão bem nas provas; e daqueles que têm mais dificuldades,
estudam muito mais e, às vezes, não tiram notas tão boas.
De que modo isso deve
afetar a forma como pais criam seus filhos e professores ensinam aos alunos?
Mesmo correndo o perigo de dizer algo meio óbvio, talvez
valha a pena ressaltar que o aluno que tem dificuldades certamente se dará
melhor se estudar mais. Olhando de forma mais ampla para outras áreas, é
importante incentivar as crianças a ter várias experiências. A idade em que
cada um começa a praticar uma atividade também pode ser determinante. Motivação
é outra coisa crucial, e pais e educadores têm um papel a exercer aí.
Qual é o papel do
treinamento no mundo do trabalho?
Os estudos que existem sobre treinamento na área
profissional ainda são restritos. Há alguma coisa sobre atividades como piloto
de aeronaves militares, programadores de computador e vendedores de seguro. São
profissões muito diferentes para que a gente chegue a algo conclusivo. Fora
isso, há um debate sobre a definição de treinamento – se inclui experiência
profissional ou não. Dito isso, acho difícil que o treinamento apareça como o
fator mais determinante para uma pessoa chegar à excelência.
Ou seja, as empresas
precisam ter melhores instrumentos para identificar o talento nas entrevistas
de emprego em vez de se dedicar tanto aos treinamentos?
O que posso dizer é que há uma série de fatores que
influenciam o desempenho no trabalho e não sabemos quais mais contribuem para o
sucesso. Precisamos estudar um número maior de profissões e analisa-las a fundo.
Publicada na revista Exame, nº 15, edição 1071 de
20/08/2014.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
O VALOR DAS HORAS DE VOO
Para
o professor David E. Bloom, da Universidade Harvard, um dos maiores
especialistas em demografia do mundo, governos e empresas devem se adaptar para
tirar vantagem do envelhecimento da população mundial.
“Ante
um pano de fundo de ansiedade econômica causada pela recente crise financeira,
falar em tendências demográficas parece secundário. Mas o envelhecimento das
nações tem preocupado bastante alguns analistas econômicos. Espera-se que o
número de centenários mais do que duplique em todo o mundo até 2030. Há
projeções que indicam quase 3,4 milhões deles até 2050 – isso num cenário de
queda de fertilidade. Alguns países ficarão mais velhos mais depressa do que
outros. No Brasil, o envelhecimento da população está se acelerando
dramaticamente. Uma análise de longo prazo deixa isso claro. O país levou seis
décadas para ver a participação das pessoas acima de 60 anos aumentar de 5% da
população para os atuais 10%. Nos próximos 40 anos, esse percentual deverá
chegar a 30%. Em 2050, o número de brasileiros acima de 60 anos totalizará
cerca de 70 milhões – quase a população atual da França. Os brasileiros com
mais de 80 anos serão mais de 16 milhões.
As
preocupações dos economistas com o envelhecimento giram em torno de escassez de
trabalhadores, crescimento econômico mais lento e sistemas de previdência e
assistência médica sob pressão. Para alguns, envelhecimento populacional
significa aumento no número de idosos frágeis, solitários e isolados em
instituições que oneram sua família. Em outro cenário terrível, a morte é
adiada, mas o surgimento de doenças crônicas, a decadência física e mental e a
perda de independência se impõem. Em todos esses casos, o prolongamento da vida
significa apenas mais miséria. Além disso, argumentam esses economistas, os
idosos não trabalham nem poupam como a maioria dos adultos. Por isso, muitos
preveem que o envelhecimento vai pesar sobre as gerações mais jovens, obrigadas
a financiar os sistemas de aposentadoria e de saúde.
As
visões alarmistas não resistem, porém, a uma análise mais profunda. Primeiro
porque vale sempre lembrar que o aumento da longevidade é uma das conquistas
mais notáveis da humanidade – uma consequência dos avanços em saúde pública,
educação e desenvolvimento econômico. Fora isso, o envelhecimento da população
não se traduz automaticamente numa catástrofe econômica e social. Há
estratégias que podem ser adotadas para minimizar possíveis problemas causados
pelo envelhecimento, como mudanças nas regras de aposentaria, políticas
trabalhistas favoráveis a mulheres e programas de treinamento para
trabalhadores mais velhos. Com toda certeza, o veredito sobre esse tsunami
grisalho ainda não foi dado.
É
curioso perceber que, em vários países onde o fenômeno já é mais marcante, as
mudanças demográficas estimulam transformações comportamentais e tecnológicas,
provocam inovações e promovem ajustes institucionais que, com frequência,
compensam a força da nova configuração geracional. Tudo depende da preparação e
do poder de adaptação, tanto do ponto de vista individual como coletivo.
Antecipar uma vida mais longa significa que as pessoas provavelmente pouparão
mais para os anos em que não estarão trabalhando. Indica também a revisão de
políticas de aposentadoria para desestimular a saída precoce do mercado de
trabalho.
Quando
o assunto é adiar a aposentadoria, vale sempre se perguntar se as pessoas mais
velhas vão querer trabalhar por mais anos. Tudo indica que sim. As tecnologias
contra o envelhecimento e os estilos de vida mais saudáveis não têm só
aumentado a longevidade, mas tornado a velhice mais vigorosa. Com melhor saúde,
os empregados mais velhos provavelmente desejarão ser produtivos por mais
tempo. Se essa previsão se concretizar, algumas práticas terão de ser revisadas
no setor privado. Os locais de trabalho mais favoráveis a idosos incluem uma
série de adaptações, de cargos e horários flexíveis a oportunidades de
retreinamento.
Como
fechar a conta
Do ponto de vista dos governos, considerar
as pessoas idosas um recurso é fundamental para cobrir uma potencial escassez
de mão de obra. Aumentar a idade legal de aposentadoria promoverá maior
produtividade e renda durante o tempo de vida – isso sem falar em todos os
benefícios sobre as contribuições previdenciárias. Nos Estados Unidos, a
participação na força de trabalho de indivíduos idosos vem aumentando desde
meados da década de 90, mais especialmente entre aqueles com maior nível de
escolaridade. Quanto antes as reformas necessárias para enfrentar um futuro
mais grisalho forem iniciadas, mais suave será a transição para uma população
mais velha.
Por tudo isso, no futuro provavelmente
teremos uma nova visão sobre a velhice. A ideia de envelhecimento deixará de
ser associada ao acréscimo de anos à vida e passará a significar mais vida aos
anos. Esse novo entendimento sobre o assunto tornará mais evidente as
oportunidade de negócios criadas pelo aumento da população amis velha, com suas
necessidades e interesses específicos, algo que poucas empresas já perceberam.
Mesmo nesse cenário que pode ser mais otimista, ainda há uma batalha no campo
da imagem que precisa ser ganha. Ver idosos por uma ótica discriminatória de
declínio só consolida estereótipos. Mais esforços para traçar um quadro
realista dos idosos – ilustrando sua sabedoria, experiência, autoridade moral e
liderança – vão melhorar a vida deles e os tornarão mais valiosos no mercado de
trabalho.
Em resumo, demografia não é um destino.
Historicamente, mudanças demográficas criaram desafios importantes para as
sociedades. Mas as adaptações que foram realizadas para reverter as
desvantagens têm sido igualmente notáveis. Há não muito tempo, pessoas de 40
anos sofriam preconceito no mercado de trabalho. Aos 50 anos eram consideradas
idosas e muitas se aposentavam. Numa economia cada dia mais globalizada e mais
regida pelo conhecimento, a experiência de trabalhadores idosos pode ser
inestimável. Pesquisas com empregadores comumente revelam que os trabalhadores
com mais de 60 anos são vistos como experientes, informados, confiáveis e
leais. Ou seja, horas de voo já são contabilizadas como ativo, não como uma
desvantagem. O futuro, sem dúvida, será de cabelos brancos. Não apenas em
asilos, consultórios médicos e hospitais. Mas em escritórios, fábricas,
cinemas, shopping centers, aeroportos, lugares turísticos...”.
David E. Bloom é economista e professor de
demografia na Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, nos Estados
Unidos.
Publicado na Revista
Exame, edição 1.068, ano 48, nº 12, de 09/07/2014.
sexta-feira, 11 de julho de 2014
GESTÃO ESTRATÉGICA DA “SELEÇÃO” BRASILEIRA
Por
Plínio José Figueiredo Ferreira
A maioria dos brasileiros, ainda sob o impacto do placar
de 7 x 1, está a analisar o desempenho da seleção(?) brasileira de futebol
atribuindo à comissão técnica, aos jogadores e à CBF os desacertos que
culminaram com a frustração do desejo de todos. Também atribui o problema a
erros na gestão da equipe que começaram na convocação e terminaram na escalação
para o penúltimo jogo.
Nada é consequência de acontecimentos fortuitos. Quando
falamos em acaso, fatalidade, na verdade desconhecemos ou não podemos
compreender ou ainda queremos ignorar a acusa daquele acontecimento. Sempre há
uma causa e um por que para todos os acontecimentos. Nada acontece sem uma
causa, ou uma série de causas. Procura-se resolver as consequências; as causas
permanecem fazendo parte de uma cadeia ordenada de eventos que trará mais
problemas, e que continuam a ser resolvidos isoladamente. A grande questão é
como a realidade é percebida. As bases de raciocínio eram estatísticas
anacrônicas e outros fatores estupidamente subjetivos e paternalistas, bem ao
gosto e á conveniência de alguns.
Segundo Fritjof Capra, o mundo está diante de uma grande
crise de percepção. “Ela deriva do fato de que a maioria de nós, e em especial
as grandes instituições sociais, concordam com uma visão de mundo obsoleta, uma
percepção da realidade inadequada para lidarmos com nosso mundo superpovoado e
globalmente interligado. Há soluções para os principais problemas de nosso
tempo, algumas delas até mesmo simples. Mas requerem uma mudança radical em
nossas percepções. Isto também se chama mudança de paradigmas. Estas mudanças
só ocorrem sob a forma de rupturas descontínuas, através da evolução ou de uma
revolução (strictu senso). A mudança de paradigmas requer uma expansão não
apenas de nossas percepções e maneiras de pensar, mas também de nossos
valores”.
Constatou-se a falta de visão sistêmica quando, a cada
jogo, o trabalho era individual, individualista, de culto à personalidade. Não
havia time, conjunto. Todos movidos pelo desejo de ser hexa campeão, diferente
de ter como objetivo um bom desempenho que levasse à conquista do campeonato.
As estatísticas anacrônicas e o “peso da camisa” já davam como certa a vitória.
Esqueceu-se de combinar com os adversários.
Faltou a todos os envolvidos na busca do hexa, pensamento
e visão sistêmicos. Ter pensamento e visão sistêmica é pensar de forma
integrada; é pensar na relação de causa e efeito; é pensar de forma contextual;
é pensar em mudança. Mas para isso é preciso ter vontade de mudar, mudar os
modelos mentais e admitir que tudo o que é feito sem planejamento e estratégia
tende a fracassar. É uma questão de tempo.
Plínio José Figueiredo Ferreira é Administrador pela
UFBA e Pós-Graduado pela FGV-EAESP. Sócio-Diretor da Habilitas Consultoria em
Gestão Empresarial. Professor/Consultor no NEA-Núcleo de Extensão da Escola de
Administração da UFBA. Consultor em projetos de planejamento estratégico.
Palestrante. Autor de artigos sobre Gestão Estratégica.
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